Pesquisa: Não-objeto e artistas cinéticos
As Strandbeests, de Theo Jansen, me causam um misto de admiração e estranhamento. Ver aquelas estruturas imensas se movendo com graça pelas praias, impulsionadas apenas pelo vento, é como testemunhar o nascimento de uma nova forma de vida — uma vida que não respira, mas reage, que não tem coração, mas parece ter vontade.
Para mim, a força da obra está justamente aí: no fato de ela nos fazer repensar o que é "vivo". Jansen cria esculturas que não são apenas cinéticas — são quase criaturas, com "ossos", "músculos" e uma engenhosidade que beira o poético. É arte que caminha sozinha, literalmente, e isso me faz pensar sobre o futuro, sobre o quanto estamos nos aproximando de criar seres autônomos, híbridos entre o natural e o construído.
No fundo, as Strandbeests me tocam porque elas são belas na sua fragilidade e complexidade. Elas desafiam a lógica da escultura estática e nos convidam a olhar para o movimento como algo essencialmente artístico, quase como uma dança silenciosa entre a invenção humana e a força da natureza.
Ferreira Gullar falava do não objeto como algo que não se limita à contemplação passiva; é uma presença que se revela na relação com o espectador. Trepantes materializa isso com força. Seus módulos articuláveis se adaptam ao ambiente, ao corpo e às mãos que os manipulam. Não existe uma forma definitiva — ela está sempre por vir, sempre em transformação. A obra não é um fim em si, mas um processo.
Pessoalmente, essa fluidez me fascina. Me faz pensar em como a arte pode ser menos sobre representar o mundo e mais sobre criar experiências sensoriais e afetivas. Trepantes me lembra que a arte não precisa estar em um pedestal — ela pode estar entre nós, ao nosso alcance, crescendo como uma ideia viva, que se enrosca, se dobra e se recria, como as próprias trepadeiras que lhe dão nome.


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